23/10/12

eu, pessoalmente.

'eu, pessoalmente' é a construção frásica mais badalhoca que conheço. se não fosses tu, pessoalmente, quem serias tu, ó ser impessoal?
e é egoísmo, é pleonasmo, é perda de tempo.
se tu, pessoalmente e eu, pessoalmente, acharmos coisas que são o que, pessoalmente, toda a gente acha, isto deixa de ser muito pessoal. como por exemplo, o benfica ser o melhor do mundo.

por isso, pessoas pessoais, eu, pessoalmente, acho que era melhor acabarmos com esta mania. não traz nada de novo ao intelecto e só nos mata entendimentos.

mentira, a mim faz-me rir. é só.

10/09/12

ao pedro

Amigo Pedro,

Acabaste de cair mais 7% na minha consideração.
Queria escrever-te hoje não como a pessoa-que-quer-acreditar-num-país-com-pernas-para-andar, mas como a pessoa-que-já-viu-que-assim-não-vamos-longe, para te dizer apenas isto: esta história não acaba assim.
Sei que não vais responder a isto porque amanhã joga a selecção e deves andar ocupado a preparar mais uma intervenção brilhante, amigo.

Obrigada a ti.

Marta

30/08/12

a promoção que toda a gente quer

começas a passo de bebé no teu primeiro emprego, a esforçares-te para não cambaleares muito à vista dos adultos (que vão lançando olhares de desvalorização para as tuas tentativas) nem para pareceres tão bebé quanto sabes ser.

perdes-te numa identidade que nem é bem tua. é um agrada-a-todos para não causar problemas a ninguém, mas sobretudo a ti próprio. a tua opinião evapora-se neste contexto, varia consoante o adulto com quem contactas. gugu dadá, somos todos amigos, não pisas ninguém.

entretanto, nos acasos da vida sai-te na rifa desempenhares uma tarefa ainda mais exigente do que aquela que inicialmente supunhas. a promoção que toda a gente quer. matam-se, esfolam-se para poder ficar com ela; dá acesso a palavrões engraçados como isenção de horários e outras compensações financeiras que fazem parte do calão adulto, que nem sequer entendes bem.

a promoção que toda a gente quer cai-te no colo.
mas tu não queres a promoção que toda a gente quer.

e depois o teu corpo divide-se entre cérebro e coração; um diz-te que estás a ser claramente um parvo, o outro que parvo é viver infeliz por algo que nem escolheste. e depois vais perguntar-te com a discordância de qual consegues viver melhor daí para a frente.

santa meteorologia

nunca ninguém diz meteorológico como se escreve. e isso é coisa que me dana.
me-te-o-ro-ló-gi-co.
é metreúlógico, metrológico ou metriulógico.

o facto de as previsões do tempo não saírem certas é porque estamos a dar motivos ao boletim meteorológico para nos odiar a todos e a incentivá-lo a enganar-nos.

agora a sério: meteorológico. meteoro. parece-me lógico.

26/08/12

pastilha elástica, meu chuchu.

devo às pastilhas elásticas o maior dos agradecimentos.
estiveram sempre por lá, nos bons e nos maus momentos, para me distrair a mandíbula e a língua. mas, mais do que isso, estiveram lá nos momentos ainda mais importantes: os do enrascanço.

obrigada pastilha por me teres ajudado a consertar um furo um colchão de ar; evitei ter de dormir no chão, desconfortável entre pó e bicho da madeira.
obrigada pastilha por me teres ajudado a consertar, no meu primeiro dia de trabalho, a minha sandália que teimou em descolar-se da sola. só posso imaginar o que seria a minha figura a chinelar desalmadamente por esses transportes públicos fora.

da próxima vez que tu, pastilha, te coles à sola do meu sapato, a pegar-me ao chão ranhoso de um metro, prometo não praguejar tanto aos céus. vou encará-lo como uma lição.

são as pastilhas que te mantêm os pés bem assentes na terra.
isso da gravidade e da humildade é tudo desculpas.

um sentido abraço mascado às chiclet, bubblicious, bubbaloo e gorilas que se atravessaram no meu caminho.

14/08/12

as músicas-sensação do verão

ele quer tchu. ele quer tchá. ele quer tchutchá.
eu propunha que ele redireccionasse a procura para a tchetchas da mãe dele.

26/07/12

o meu wannabe

tivesse eu jeito e criatividade e isto em vez de um texto
era uma canção pseudo-deprimente
em que a personagem principal sofre de
alucinações constantes a preto-e-branco
e ainda tem um triciclo vermelho.

e havia de se chamar
'suicide to kill the bug'.

23/07/12

chuva miudinha #1 - O senhor Relvas


Nos últimos tempos, tenho ouvido o papá e a mamã falar de um senhor chamado Relvas. Ao princípio achava que estavam a falar do Jardim lá de casa, que ainda não percebi bem mas tem qualquer coisa a ver com Madeira. 

Mas não. É mesmo um senhor chamado Relvas que vive no mundo da política.
Os meus pais e muitos outros adultos fazem piadas sobre este senhor e riem muito. Não entendo porque às vezes têm palavras complicadas no meio tipo 'equivalência', 'filhadaputice' ou 'pócaralho'.

Acho que o senhor Relvas deve andar muito magoado com estas piadas e os adultos não deviam gozar com ele. A minha mãe não me deixa chamar "orelhas de abano" ao Albano da minha classe, mas chama coisas piores ao senhor Relvas.

No outro dia, eu disse ao meu papá que queria mandar uma carta ao senhor Relvas para pedir desculpa pelos adultos que não se sabem portar bem. O meu papá riu-se e depois ficou sério e mandou-me ir dormir para não ficar com ideias.

22/07/12

post-it no frigorífico de um casal com relacionamento saudável

Cabrão de cueca azul,

a história é muito simples.
A tua cunhada veio perguntar-me para quando achava que te ia dar jeito ir lá a casa dar uma arrumadela no bicho e eu disse-lhe que caralho de pergunta, porque tinha eu de saber isso tudo, sei lá quando te dão as ganas de ir lá - aliás, nunca sei quando te dão as ganas de nada, meu camelo, e tu sabes do que falo, nem te ponhas com essa cara de filho da mãe.

Pedes-me que esteja lá quando precisas porque te surge a vontade, mas e a minha, quando a tenho, onde fica? Sabes que por ti deixei o que deixei para trás - nunca te pedi satisfações, ou pedi? e nem peço porque não sou pessoa disso, meu paneleiro. Já contigo não é assim; juras que me amas mas sempre que podes fodes-me a cabeça porque deixaste aquela puta para ficares comigo. Se não gostas da merda dos cozinhados que faço, temos pena, mas é o que há, que eu, ao menos, sempre tenho desculpa para nunca ter aprendido direitinho, como tu gostas, não é como aquela parva que tem medo de sacar fora o verniz quando tempera a carne e espichar o rímel dos olhos quando desfaz cebolas. Mas se é com peças dessas que te queres aviar, é favor servir-se. Aliás, é disso que deves ter andado a fazer, a julgar pela fome com que chegas a casa e a falta de vontade, boizinho.

De qualquer modo, disse à tua cunhada que depois de amanhã, por ser véspera de feriado, te calhava em bem dares um salto lá. Agora esquece-te.

20/07/12

chuviscos #1


De vez em quando é porque não se pertence. Nem a um mundo de petiz de lanches a meio da manhã, recreio, 'há-fogo-há-fogo-no-cú-do-diogo' e trabalhos de casa, sem esquecer o 'xixi-cama'. Nem ao mundo dos adultos, este das bestas do ritmo alucinante.
Porque não sou uma coisa nem outra, sou um intermédio meio termo fatela sem definição. E o pior é que a única coisa que sei é que não pertenço a nada disso. Melhor, o que tenho a certeza de saber é que só me pertenço a mim. Bonito!, logo a mim que não faço puto de ideia do que fazer comigo.

Para onde quer que vá serei inadequada. Ou avô cantigas no liceu ou o garoto que tira macacos do nariz e come no mundo empresarial.

E logo eu que acho que até posso vir a ter tanto potencial. Para coisas, sei lá. Coisas em geral, particularmente. Mas decidiram entregar-me a mim a responsabilidade de me fazer alguém, de me traçar um rumo. Não é suposto funcionar assim! Tem de haver um livro de instruções de mim perdido algures numa daquelas gavetas onde se guarda toda a tralha, escrito em 7 dialectos e made in taiwan. Um daqueles com os passos todos explicadinhos em listas numeradas e com desenhos ao lado.

Não pode ser assim só esta injustiça de vir ao mundo e ter de ser criativo o suficiente para sobreviver nesta selva.