19/01/15

dia 19 - engonhar.

gosto de tirar dias para engonhar.
fazem parte de mim os exercícios de flexibilidade da preguiça.
permitem-me estabelecer o padrão do tédio absoluto para poder depois comparar com as alturas azafamadas e dizer que precisamente nesta altura é que eu estava bem.

há qualquer coisa de bom em perder conscientemente tempo.
porque se quer mesmo perdê-lo.
no meio disso, acho sempre tanta coisa.

18/01/15

dia 18 - as coisas pequenas da vida.

estamos fartos de ouvir dizer que a felicidade reside nas coisas pequenas da vida.
nas grandes está uma felicidade oca.
e eu até preferia que ela se encontrasse nas coisas de grande dimensão.
é que eu tenho miopia da forte e custa-me muito mais encontrar as coisas de menor tamanho.

13/01/15

dia 13 - siga.

para a frente é que é caminho.
pega-se nos bocados e parte-se à procura de mais para partir.

dia 12 - falhei.

celebra-se neste espaço, em nome do dia em que falhei, todos os dias em que todos falhámos.
rudes golpes esses que, por desistência, esquecimento ou preguiça, nos fizeram perder a genica.
este aqui foi por excesso de trabalho e falta de tempo, o que sempre é melhor desculpa.
falhei. mas falhei da melhor maneira.

11/01/15

dia 11 - o sorriso que me davas afinal era de empréstimo.

havia dias em que o sorriso que me davas me fazia os dias.
ele.
só.

depois percebi que o sorriso que me davas não era bem meu.
era de empréstimo.
os juros eram uma merda.
tive de vender umas lágrimas minhas para os amortizar.

no meio do processo descobri um sorriso meu.
só meu.
e este nem sequer to empresto.

dia 10 e meio

não falhei.
cheguei só 38 minutos atrasada.

08/01/15

dia 8 - somos todos charlie.

sei os meandros das leis que protegem direitos de informação e de expressão.
contaram-me que são a base de uma sociedade democrática.
disseram-me que são invioláveis.

hoje acordamos para um mundo de luto com sabor a petit gâteau queimado.
traz o cheiro do dia em que a pólvora tentou silenciar.

as munições não podem mais que as canetas.
as armas não podem mais que os cérebros críticos.

somos nós, cada um, sem censuras.
mesmo na luta desleal de grafite contra disparos.
desleal para os disparos, entenda-se.

ontem, hoje, sempre. somos charlie.