07/01/15

dia 7 - ocorreu-me que...

se calhar devíamos saber mais uns dos outros.
que no meio do tempo em que corremos e nos apressamos e fazemos listas de coisas a cumprir e olhamos para o relógio para confirmar que chegamos a tempo de fazer as coisas que estão nas listas, pelas quais passámos o dia a correr e a apressar-nos, se calhar, vamo-nos perdendo uns aos outros.
querer colar os pedaços todos do mundo numa folha de tarefas não resulta.
fica sempre um pedacinho de fora.

05/01/15

dia 5 - para sempre.

tenho dificuldade em imaginar infinitos.
tempos que se prolongam indefinidamente sem limites.
nunca condicionados.
para sempres.

regra geral, questiono-os e não os deixo ir avante no seu modo naïve de ser.
porque não pode ser, não são reais, porque se mete a vida pelo meio.

mas a verdade é que, quando se mete a morte pelo meio, há memórias que duram infinitos.
mesmo memórias que não existem - porque não podiam existir! -, mas que a mente fabrica.

há precisamente um ano chorei as lágrimas de quem nunca viu jogar Eusébio.
porém, tenho em mim a certeza que partilhei cada golo marcado. que é também meu um bocadinho do seu entusiasmo quando encarava a bola no fundo das redes.

afinal há coisas que duram para sempre.

03/01/15

dia 3 - dói-me o branco.

os brancos das páginas em branco são de um pantone diferente porque ferem mais os olhos e imobilizam mais os membros.
fossem todas as folhas de cor, nunca haveria uma em branco.

02/01/15

um post por dia.

prometi-me.
sei que vou falhar miseravelmente.
sei que não vai fazer diferença absolutamente nenhuma.
sei que no fim o que fica é o que sobrou.

por isso, vamos lá.

01/01/15

o novo ano começou.

e eu tenho um problema com anos novos, da mesma maneira que uma pessoa velha desconfia de tudo o que é novo. é imaturo, propenso a brincadeiras parvas e celebrado com grande euforia para depois perder a piada toda em poucos dias.

quando gosto, gosto de gostar das coisas como se fossem durar para sempre e não só 365 dias. ou 366 quando aparece um bissexto.
quando finalmente aprendo a lidar com um ano, a perceber o que ele gosta, como o devo tratar, eis que se finda. recebo o novo ano com o desdém de quem vai trocar um artigo com defeito por outro que tem um ar ainda pior. 

mas que venha então o 2015.
se não conseguir acompanhar-lhe o ritmo jovem, hei-de contar-lhe histórias de anos passados e deixar-lhe lições de vida.

24/09/14

alergia a furos na parede ou isto-é-um-caso-mais-sério-do-que-aparenta

o meu quarto tem uma parede em branco, completamente em branco, porque não sei o que lhe hei-de fazer. quer dizer, sei! tenho de arranjar um quadro ou um espelho ou um poster ou um plasma gigante para colar à parede e devolver a esta divisão o merecido feng shui.

o problema é a parede.
ou melhor, o problema é meu com a parede.
não gosto de furos na parede.
compreendo todo o processo e necessidade deles porque - não me venham com tretas! - aquelas tiras autocolantes dos dois lados não suportam tanto peso quanto anunciado na tv. e nisto sou muito racional: antes com os chackras todos desalinhados do que com um desalinhamento da coluna cervical.

e a questão pode não parecer digna de desabafo, mas isto é um caso mais sério do que aparenta.

eu não gosto de furos na parede porque são definitivos. ou melhor, dão muito trabalho para deixarem de ser definitivos e isso para mim, no meu cúmulo da preguiça e total inaptidão para a bricolage, é ser definitivo. e o grave vem aqui: se eu sou assim com paredes, o que fará com a vida?

as coisas definitivas não me são muito queridas. sei que, precisamente por isso, sou um bicho de difícil domesticação. mas é um receio muito racional: da próxima vez que a mobília tiver de ser mudada, vai estar ali aquele furo, tão sem sentido, a marcar uma parede outrora imaculada.

05/09/14

às pessoas do passado que teimam em achar que o presente é o tempo delas outra vez.

muito sinceramente, não sei por que teimam em voltar. eu até já tinha virado a vossa página e suspeito que vocês a minha. então, para quê isto?

meus caros, não tenho a paciência para vinganças recauchutadas ou humilhações bafientas.
aliás, já houve tanto tempo por cima de vocês e de mim -  ó tanto em cima de mim! - que a mudança tomou parte do que eram e do que eu fui e agora restamos apenas o que vocês são e eu sou, que - veja-se! - é bem diferente do anterior estado.

estou em crer que nem eu vos quero aturar, nem vocês, se soubessem, me quereriam aturar a mim.
já sei injuriar melhor e estou mais calejada da vida. garanto que sou uma presa mais difícil, por isso reservai o esforço para algo mais útil.

mas - atenção! - isto não vos retira a importância que, de alguma forma, tiveram nas minhas páginas anteriores. não vos substituiria por nada, sacanas. quanto mais não seja porque me fazem apreciar o presente com outro gostinho.

vamos lá, compinchas, desgrudemo-nos.
isto não faz sentido nenhum.

03/09/14

a casa da minha tia

vocês não conhecem a minha tia, mas a minha tia tem uma casa que desafia todas as leis da física, da química e - estou em crer! - da gramática e semântica.
quem vê a casa da minha tia de fora não imagina o que aquilo é lá dentro.

passo a explicar.

na casa da minha tia há sempre lugar para mais um. fisicamente aquela casa não deveria comportar mais de 10 lugares sentados e outros 7 em pé, mas a verdade é que já lá coubemos para cima de trinta e à vontadinha, com os cotovelos à larga e tudo.
na casa da minha tia há sempre comida que chega e sobra. é tolice ser possível tachos e panelas terem fundo infinito, mas eu juro que é isso que se passa naquela casa.
na casa da minha tia o tempo corre de maneira diferente. naquele buraco negro dos imóveis, as noções de tempo alteram-se, os momentos aproveitam-se com aquele estalar de lábios como no fim de um gole de bom vinho, as conversas fluem como no fim de muitos goles de vinho.

e um dia eu quero ter uma casa destas.